#1 - Magnitude
Romans de Berte aus grands piés (anon, cc. 1280)
Versão Portuguesa segue abaixo.
EN
The sentence recoils before it is spoken. From what does it recoil?
From a sense of magnitude. Of space? Of time? Of scope? Of consequence?
Yes, in all these things there lies a sense of magnitude which by itself is enough to render the sentence unformed or, at least, unfinished. Because what is lost in this magnitude is a discourse – a space for the spoken - which could contain the sentence without crushing the very possibility of whatever meaning it seeks.
I wish I could agree with the more generalised diagnosis given to this malaise of meaninglessness: a problematic of time. The world I have been told again and again is too fast, the sequence of events too intense, and accelerating still. I have tried to follow this logic, I have reorganized my spaces, my routines, and my thoughts to heal the rhythms of my life. I have slowed down.
But as I step out into my balcony, squinting my eyes at the sky’s brightness while mindfully counting the minutes my mug of tea takes to steep, I am struck by how little speed I witness in the world. Contrarian maybe, but I would even say that it is speed I sense lacking: wars, economies, societies, ecologies… all seem stuck in a glacial pace of non-resolution, as the many ends that they announce seem to either never be fulfilled or, even when fulfilled, fail to bring any resolution.
It is now I wonder what kind of vantage point my balcony provides that I can witness from it such vast processes. I shouldn’t be able to, of course, but here I am: ignoring my neighbour’s attempts at keeping his newly acquired chickens from invading the beginnings of a cucumber plot (“Berta!” he seems to scream), while contemplating some atrocious war crime thousands of miles away, or the irreversible loss of Siberian permafrost. And so things stay meaningless: no sentence can hope to make sense of Siberia, the war, or even the chickens.
I’m equally unconvinced with the language of treatment I am offered to confront my anxious lack of meaning. I am told of serotonin and dopamine, their dizzying loops and dips, disorganized networks of neurons and glands, the vague discontent of my vagus nerve, the corpuscular factory of thoughts. Interestingly, their speed seems even more intense than that of my supposedly accelerating world, and yet, as biological facts, they predate this world. Furthermore, my balcony lacks any type of equipment to observe these elements, so they remain quiet abstractions, saying nothing, and meaning even less. Luckily, I tend to forget their even being there.
And so the sentence recoils, stuck between the massive and the molecular - between two magnitudes where meaning cannot be encountered. What remains then, even with the sentence’s absence, are the minor sensations: the mug’s fading warmth in my fingers… the exceptional dryness of these past April days… the chickens protesting their sudden incarceration from within their coop.
I join the sentence, we recoil and gather to retreat into this other field of things that share the scale of our own size and duration; not as stable facts, but as stable ground for what can be felt. Perhaps from here we, the sentence and I, may leap further. Perhaps this is the project. Surely the chickens have something for us to say.
PT
A frase recua antes de ser dita. Perante o quê?
A sensação de uma magnitude. Do tempo? Do espaço? Da dimensão? Da consequência?
Sim, em todas estas coisas reside a sensação de uma magnitude que por si só é capaz de deixar a frase informe ou, pelo menos, inacabada. Porque o que se perde nesta magnitude é um discurso – um espaço para o dizer – que a pudesse conter sem aniquilar a mera possibilidade de qualquer sentido que ela busque.
Quem me dera poder concordar com o diagnósico mais comum para esta maleita da falta de sentido: uma problemática temporal. O mundo, assim me disseram vezes sem conta, é demasiado veloz, a sucessão de eventos demasiado intensa e ainda em estado de aceleração. Tentei comprometer-me com esse diagnóstico, dispus os meus espaços, rotinas e pensamentos numa terapia dos meus ritmos de vida. Abrandei.
Mas agora, da minha varanda, vista ofuscada pela limpeza do céu, detidamente contando os minutos que apuram o chá na minha caneca, sou surpreendido pela pouca velocidade que testemunho no mundo. Poderei ser do contra, mas atrevo-me a dizer que é precisamente uma falta de velocidade que eu constato: guerras, economias, sociedades e ecologias... todas me parecem presas num passo glaciar sem resolução, sem nunca chegar o seu fim anunciado, e mesmo chegado, o fim falha sempre em trazer qualquer conclusão.
É neste momento que me pergunto que tipo de vistas me oferece esta varanda que me permitem observar a partir dela semelhante vastidão? Não deveria ser capaz, mas aqui estou: ignorando as tentativas do meu vizinho de proteger os rebentos dos pepinos da sua horta das suas novas galinhas (“Berta!” parece gritar), enquanto contemplo alguma atrocidade de guerra a milhares de quilómetros, ou as consequências devastadoras do derreter irreversível do pergelissolo Siberiano. E assim o sentido permanece ausente: nenhuma frase poderia introduzi-lo à Sibéria, à guerra, ou mesmo às galinhas.
Também não me convence a linguagem com que articulam a direção de um tratamento para recuperar o sentido à minha angústia. Escuto falar de seratonina e dopamina, dos seus ciclos e das suas vertigens, das redes desorganizadas de neurónios e glândulas, de nervos vagos, da fábrica corpuscular das ideias. Surpreende-me no entanto que a sua descrição carrega uma velocidade que supera o mundo acelerado que supostamente me condena; e, no entanto, enquanto factos biológicos, a sua rapidez deveria preceder este momento e a sua história. Para além disso, a minha varanda dispõe de ainda menos equipamento para poder observar os elementos desse jargão. E assim permanecem, abstrações caladas, sem significado e ainda menos sentido. Felizmente, tendo a ignorar por completo que aí estejam.
E por isso a frase recua, suspendida entre a vastidão e o molecular - duas magnitudes de onde nenhum sentido se escapa ou no qual se encontra. O que resta então, mesmo para lá da ausência da frase, são as sensações menores: o calor da caneca perdendo-se pelos meus dedos... estes dias de um Abril estranhamente seco... o protesto cacarejado das galinhas recém-aprisionadas.
Uno-me à frase, recuamos, recolhemos e assim vamos em retirada para esse domínio das coisas com as quais partilhamos o tamanho e os tempos. Não por serem sólidas em si, mas por oferecerem uma solidez terrena ao nosso sentir. Talvez de aqui a frase e eu possamos saltar mais além. Talvez seja este o projecto. Não me espantaria se as galhinhas tivessem algo para nós dizermos.